domingo, 16 de setembro de 2012

Receita sobre o tempo da travessia


Lendo um trecho dos escritos de Fernando Pessoa, refleti sobre os tempos que nos desafiam a fazer travessias.

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." F. Pessoa

Agir em prol do abandono das "roupas" usadas, surradas e velhas que escolhemos para usar, das cores que compõem nossa identidade roupal e dos modelos que envolvem nosso estilo, é caminho trabalhoso e muitas vezes pedregoso. Gosto até de pensar que o conforto para alguns, está na roupa gasta, parece que o tecido fica mais suave no corpo.

Existem tantos caminhos para relacionar essa metáfora com as áreas diversas da existência. Hoje, quero associar essa metáfora com a consciência moral. Acredito, que nossa consciência moral precisa passar por travessias, alcançar novos espaços, praticar novos hábitos e finalmente abandonar as roupas usadas.





Consciência moral pode ser compreendida, primeiramente, como um conjunto de ideias preconcebidas. Essas ideias são responsáveis por ações e reações. Num segundo plano, tem-se uma estrutura de valores, juízos, sentenças, padrões, costumes e crenças, que fazem parte dos óculos existenciais que cada pessoa usa para perceber e julgar a realidade. Todos esses aspectos foram herdados, pois a maioria dos  pensamentos não são construídos e sim transmitidos, adquiridos, capturados pelos diversos ambientes que formam cada ser humano. Daí, a bandeira antropológica de que não nascemos humanos, nos tornamos humanos. Sendo assim, somos moralmente formados.

O tempo da travessia inclui transpor barreiras morais.

Receita sobre o tempo da travessia

Ingredientes


  • Três copos diários das seguintes indagações: Por que não consigo conceber ideias, comportamentos, valores, práticas e escolhas diferentes das que considero corretas? Por que emito juízos e sentenças para ideias, comportamentos, valores e crenças que não fazem parte das minhas escolhas? O que realmente me incomoda quando o outro sai do meu padrão? O auto questionamento centrado naquilo que rejeitamos, julgamos e que nos importuna é essencial para começar o processo da travessia.

  • Uma leve pitada de reconhecimento que jamais teremos certeza sobre quais valores morais são universais. Cada sociedade estabelece seus padrões morais, seus valores, suas crenças. Com o tempo esses padrões sofrem mutações. Pois, é típico da humanidade o desenvolvimento e a evolução. Assim, nota-se que na história humana, a procura por caminhos corretos nos levaram para estradas partidárias. Cada grupo brigando pelo seu ponto de vista. A instituição da regra nunca foi o caminho para o bem, para a solidariedade e para a fraternidade. O bem comum - vida, liberdade e amor - nunca deveriam se tornar leis, padrões e regras, pois ao estabelecer o como deve ser feito ou vivido nos dividimos e impedimos a travessia.

  • Uma colher de coragem para reelaborar-se. Abandonar velhos costumes, ideias arcaicas que só tem forma no nosso corpo, não serve para cobrir, vestir e acolher ninguém. Abrir a mente para novos conceitos, novos modelos e estilos, é aprender a conviver, a amar apesar de...a vida é curta e rápida demais para nos perdermos no que é mesquinho, pequeno, medíocre e fruto da nossa meninice. A coragem é ousadia para superar o limite da formação recebida e mergulhar na direção das águas profundas da nossa existência.

Modo de preparo

O tempo da travessia é marcado pelo abandono da rejeição, julgamento e daquilo que importuna. É reconhecimento da falha quando procura-se o como fazer e não a liberdade de ser. E, por fim, é coragem para mergulhar nas águas profundas da existência, para descobrir que existe mais vida, muitos olhares diferenciados sobre a mesma questão. Mistura abandono, reconhecimento e coragem para fazer uma boa travessia.

Dica

É tempo de travessia! Diante das múltiplas maneiras de viver e estar no mundo, é necessário pensar no seu, no meu e no nosso tempo de travessia. Uma vida melhor exige uma boa travessia!

Boa Semana,

Mila